Produção de motos bate recorde de quase duas décadas e mercado caminha para as 2 milhões de unidades

Diego Velázquez
7 Min de leitura

Polo Industrial de Manaus vive o melhor início de ano desde 2008, enquanto motos elétricas ainda engatinham, mas já mostram sinais de crescimento

O setor de duas rodas vive um dos seus melhores momentos em quase vinte anos. Entre janeiro e abril de 2026, as fabricantes instaladas no Polo Industrial de Manaus produziram 745.824 motocicletas, um volume 10,6% superior ao mesmo período do ano anterior, o melhor desempenho para um primeiro quadrimestre desde 2008. O ritmo de vendas acompanhou esse movimento: no acumulado até abril, os licenciamentos chegaram a 782.364 motocicletas, alta de 19,1% em relação a 2025. Para o consumidor final, esse crescimento se traduz em mais opções de modelo e, segundo a Abraciclo, em preços mais competitivos, dois fatores que juntos ajudam a explicar por que a moto segue conquistando espaço como meio de transporte urbano e ferramenta de trabalho no Brasil. Duas Rodas

O presidente da Abraciclo já projeta que a indústria volte a bater a marca de 2 milhões de unidades produzidas em 2026, patamar que não era atingido desde 2011. Diferente daquele ano, contudo, a entidade acredita que o crescimento atual será mais sustentável, sem o recuo brusco que se seguiu à última vez em que o setor chegou perto desse número. Um dos pilares dessa confiança é o uso cada vez mais profissional da motocicleta, puxado pelo crescimento das entregas por aplicativo. Somente no iFood, mais de 400 mil motociclistas estão registrados atualmente na plataforma, um contingente que segue em expansão e que tem se tornado peça central da economia urbana em praticamente todas as regiões do país.

Preço acessível e agilidade explicam a demanda

Questionado sobre os motivos do crescimento nas vendas, o diretor executivo da Abraciclo, Sergio Oliveira, resumiu os principais fatores observados no mercado. Segundo ele, o preço mais acessível, a economia de combustível, o baixo custo de manutenção e a agilidade nos deslocamentos urbanos explicam por que cada vez mais brasileiros optam pela moto em vez do carro, especialmente em cidades médias e no interior do país, onde a malha viária muitas vezes favorece veículos menores. Além disso, o crescimento não fica restrito às grandes capitais: o uso vem se espalhando por regiões que historicamente tinham baixa taxa de motorização, o que amplia o mercado potencial para os próximos anos. A Crítica

O governo federal também entrou nesse debate com o lançamento do programa Move Brasil Entregadores e Motoapp, voltado a profissionais que trabalham com entregas ou transporte por aplicativo. A iniciativa oferece linhas de financiamento facilitado para a compra de motocicletas, ciclomotores e bicicletas elétricas fabricadas no Brasil, embora a Abraciclo ainda aguarde a publicação da portaria que vai definir quais marcas e modelos serão elegíveis ao crédito. Enquanto essa regulamentação não sai, o setor segue vendendo em ritmo forte apoiado principalmente no crédito tradicional e no apelo direto ao bolso do consumidor, que enxerga na moto uma alternativa mais barata frente à alta constante no preço dos automóveis.

Motos elétricas ainda são nicho, mas ganham força

Enquanto o mercado de motos a combustão bate recordes, o segmento elétrico segue em fase inicial, mas já desperta interesse crescente. Hoje, as motos elétricas representam menos de 0,5% do total de motocicletas vendidas no Brasil, um volume ainda pequeno diante do tamanho do mercado tradicional. Ainda assim, cinco marcas concentram cerca de 67% das vendas desse nicho, com destaque para a VMOTO, líder do segmento, cujo modelo mais conhecido alcança até 130 quilômetros de autonomia com duas baterias. Marcas como Watts, Shineray, Super Soco e GCX completam a lista das mais vendidas, cada uma apostando em faixas de preço e propostas de uso distintas, da mobilidade urbana simples até modelos voltados para uso profissional intenso.

Um fator que ainda limita a expansão desse mercado é a ausência de uma política nacional de incentivo. Os benefícios fiscais para motos elétricas variam de estado para estado: no Distrito Federal, Paraná e Rio Grande do Sul há isenção total de IPVA, enquanto em Mato Grosso do Sul o desconto chega a 70% e no Rio de Janeiro a 75%. Já em São Paulo não existe isenção estadual, embora a prefeitura da capital permita o estorno parcial do imposto municipal. Sem uma regra única em nível federal, o comprador acaba enfrentando um cenário fragmentado, o que dificulta a decisão de troca para quem avalia migrar do motor a combustão para o elétrico.

O horizonte para os próximos meses aponta para a consolidação desse crescimento em duas frentes distintas: o mercado tradicional, impulsionado pelo uso profissional e por preços competitivos, e o segmento elétrico, que deve seguir crescendo em ritmo percentual acelerado, ainda que a partir de uma base pequena. Novas fabricantes nacionais, como a catarinense Auper, já preparam a entrega das primeiras unidades para 2026, um sinal de que o interesse pela eletrificação de duas rodas segue avançando, mesmo diante dos desafios de infraestrutura e financiamento que ainda travam uma adoção mais rápida no país.

Fontes: A Crítica, Abraciclo aponta preços menores e agilidade como fatores para aumento nas vendas de motos | Revista Duas Rodas, Abraciclo: produção de motos no Brasil dispara em 2026 | SóMob, As cinco marcas de motos elétricas mais populares do Brasil em 2026

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