Tensão em torno de oleodutos reacendeu disputas entre Canadá e Estados Unidos

A tensão em torno de oleodutos voltou a reacender disputas diplomáticas entre Canadá e Estados Unidos, revelando o peso estratégico da infraestrutura energética na geopolítica regional, com análise de Paulo Roberto Gomes Fernandes.
Freaka Silva
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Em 2021, Paulo Roberto Gomes Fernandes analisou o agravamento das tensões diplomáticas entre Canadá e Estados Unidos em razão de projetos de oleodutos e gasodutos que cruzavam a fronteira entre os dois países. Naquele período, decisões políticas tomadas em Washington e em alguns estados americanos passaram a gerar insegurança jurídica para investimentos canadenses no setor energético, afetando diretamente projetos estratégicos de transporte de petróleo e derivados.

O cenário se tornou especialmente sensível meses após o então presidente norte-americano Joe Biden ter cancelado o projeto do oleoduto Keystone XL, uma medida que foi mal recebida pelo governo canadense e por autoridades da província de Alberta. A decisão marcou o início de uma fase de maior atrito bilateral, que voltou a ganhar força com o debate em torno da Linha 5, operada pela empresa canadense Enbridge, no estado de Michigan.

A Linha 5 como novo foco de conflito

Naquele contexto, a Linha 5 passou a ser vista como um dos principais pontos de fricção entre os dois países. O oleoduto, em operação desde a década de 1950, atravessava o Estreito de Mackinac, conectando o Lago Michigan ao Lago Huron, e era considerado estratégico tanto para a economia canadense quanto para o abastecimento energético de regiões do meio-oeste dos Estados Unidos.

Paulo Roberto Gomes Fernandes elucida que, em 2021, a governadora de Michigan determinou o fechamento do duto, alegando riscos ambientais associados à possibilidade de vazamentos em uma área sensível do ponto de vista ecológico e turístico. A decisão agradou a grupos ambientalistas e a comunidades indígenas locais, mas provocou forte reação do governo canadense e da própria Enbridge, que passou a contestar a medida judicialmente.

A alternativa do túnel subaquático

Paulo Roberto Gomes Fernandes expõe que, para contornar a ordem de fechamento e reduzir os riscos ambientais apontados, a Enbridge propôs a construção de um túnel cerca de 30 metros abaixo do leito do lago, no qual seria instalada uma nova tubulação. Durante audiências públicas realizadas à época, foram analisadas diferentes alternativas técnicas para a execução da obra.

Conflitos envolvendo oleodutos trouxeram novamente à tona divergências entre Canadá e Estados Unidos, evidenciando interesses econômicos, ambientais e regulatórios, na leitura de Paulo Roberto Gomes Fernandes.
Conflitos envolvendo oleodutos trouxeram novamente à tona divergências entre Canadá e Estados Unidos, evidenciando interesses econômicos, ambientais e regulatórios, na leitura de Paulo Roberto Gomes Fernandes.

Entre as opções avaliadas, acabou ganhando destaque a tecnologia brasileira patenteada pela Liderroll, já utilizada anteriormente em projetos complexos de túneis no Brasil, como no Gasduc III e no Gastau. Esses projetos, executados anos antes, haviam demonstrado a viabilidade de lançamentos de dutos em ambientes confinados, com elevados padrões de segurança e controle estrutural.

Repercussões políticas e econômicas

A possível interrupção da Linha 5 gerou preocupação significativa no Canadá. Autoridades federais e provinciais alertaram que o fechamento poderia provocar perda de empregos, escassez de combustíveis e aumento do transporte de petróleo por caminhões e trens, considerados mais suscetíveis a acidentes. Paulo Roberto Gomes Fernandes ressalta que as estimativas divulgadas naquele período apontavam que dezenas de milhões de litros de petróleo transportados diariamente pelo oleoduto precisariam ser redirecionados por modais menos eficientes.

Do lado americano, o debate refletia uma postura mais dura em relação a grandes projetos de infraestrutura energética, influenciada por pressões ambientais e por disputas judiciais envolvendo outros oleodutos relevantes, como o Dakota Access Pipeline e a Linha 3, também operada pela Enbridge.

Um episódio marcante nas relações bilaterais

Visto em retrospectiva, o embate em torno da Linha 5 tornou-se um dos episódios mais emblemáticos das dificuldades enfrentadas por projetos de oleodutos na América do Norte no início da década de 2020. Ele evidenciou como decisões políticas, ambientais e jurídicas passaram a ter peso equivalente, ou até superior, aos aspectos puramente técnicos na viabilização de grandes obras de infraestrutura energética.

Paulo Roberto Gomes Fernandes conclui que, para empresas e especialistas do setor, aquele período serviu como alerta sobre a necessidade de soluções construtivas mais seguras, transparentes e alinhadas às exigências ambientais e sociais, especialmente em regiões sensíveis.

Autor: Freaka Silva

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